O que se faz nas ruas e estradas de Luanda

Bom dia irmãos, amigos e concidadãos.

02 November 2022 4 min read
O que se faz nas ruas e estradas de Luanda

Estava eu viajando num veículo, "vulgo" kandongueiro, que na altura circulava na retina do Camama. Eu, cabeceando um pouquinho, pois fora farta a refeição, do meio do dia, quando ouvi um tremendo alarido e vi a enorme agitação das pessoas, correndo de um lado para outro. Alguns tropeçavam e caiam, outros chocavam com outrem, etc, etc. Eram essencialmente mulheres. Algo, surreal, na enorme poeira que se levantou. Notei que um número elevado de mulheres, com as bacias (algumas com produtos) na cabeça, corriam desenfreadas e desordenadas de um lado para outro, procurando escapar da saga de algo muito medonho. Atrás delas vinha dois polícias, trajados de azul escuro, que pareciam enlouquecidos, com um bastão na mão, iam batendo nas senhoras, enquanto as suas botas, poeirentas, pisoteavam, pontapeavam tudo que eram produtos, que resvalavam das bacias, para o chão, partiam as pequenas mesas (bancadas) artesanais, etc.

Triste espectáculo, podendo-se até considerar *"medonho",* arrepiante digno de verdadeiro filme de terror.

Após, esfregar os olhos, incrédulos, perguntei o que se passava e a resposta foi peremptória : *"o novo governador está a agir contra as vendas nas ruas"*.

É verdade que esta cidade necessita de uma limpeza, de uma regulamentação quanto as vendas nas ruas e os locais em que os mesmos são permitidos, porque esse processo "de um tempo a esta parte", assumiu proporções alarmantes, pouco higiénico (amontoado de lixo), onde as pessoas (homens e mulheres) urinam em cada canto, sem o mínimo de pudor.

Faz tempo, que algumas medidas já deviam ter sido tomadas, até porque essas actividades, e do jeito que tem sido feita, têm causado inúmeros transtornos aos transeuntes e a circulação rodoviária. Não me refiro simplesmente aos zungueiros, ao longo das estradas, e nas fachad de rodagens, mas também as vendedoras ao longo dos passeios, chegando mesmo a invadir as estradas, competindo com os veículos, até porque instalou-se a cultura de não fugirem aos carros, num *"atropela se quiseres, e depois verás!"*

A abordagem a esses problemas, pela sua índole, tem que ser nacional, e fazer-se uma análise abrangente, calma, realista, para a efectiva resolução do problema, visando a satisfação de todas as partes. *A política do bastão (policial) não há-de resolver, pelo contrário.*

A questão tem que ser abordada a fundo e sem paixões, a origem do problema e as consequências, até porque muitas pessoas que hoje têm estatutos, chegando a governantes, foram criados, alimentados, formados nesse sistema, ou seja pelas vendedoras de rua, as antigas zungueiros, dos mercados informais. Há que dar o devido respeito a essas franja de cidadãos, *"activamente económicos",* aliás, é o sustento de suas famílias que está em jogo, já que o Estado absorve (emprega) uma percentagem muito pequenina, da população "economicamente activa"

Esse pessoal que está na pobreza,  autêntica miséria, tenta ganhar com dignidade o seu sustento, e a competição pelas vendas, as faz aproximarem-se das estradas.

 *Hoje, cerca de metade da população angolana está refugiada em Luanda,* a *procura de um oportunidade, tornando a vida da capital, simplesmente, insuportável.*

É o resultado, essencialmente da falta de investimentos, criação de empregos nas suas zonas, nas suas províncias e cidades. Isso fez com que muitos deles se *refugiassem* em Luanda, aumentando, e de que maneiras, a densidade populacional da cidade, que não tem conseguido acompanhar em nenhum aspecto (infra-estruturas, políticas de gestão, etc).

 *Uma das medidas (é) era a criação de condições para a agricultura,* (já que a maioria da população é camponesa, jovem e dedicava-se a essa área) e outros ramos. *A criação de  incentivos (bônus ou algo parecido) para que algumas famílias regressem as suas origens e trabalhem na lavoura.*

É de notar que, há pouco tempo, o presidente do Ruanda, Paul Kagame, anunciou um grande pacote para incentivo da agricultura, no seu país, porque é de facto uma vergonha, que a alimentação do mundo dependa de uma pequena Ucraína. Com a quantidade de terras aráveis que temos, a imensidão de rios,( constituindo a maior rede hidrográfica de África e uma das maiores do mundo), adicionada a população essencialmente jovens, temos tudo para sorrir. *Angola tem condições para ajudar (com uma substancial contribuição) a acabar com a fome em África, e no mundo.* O único "hundicup" de Angola são as paupérrimas e inadaptáveis políticas de  gestão desses sectores (agricultura e economia), pelas razões "crônicas" que todos conhecemos, *para não falarmos da "vontade política",* que parece escassa, aqui pelos nossos lados.

Será que somos tão incompetentes que não conseguimos imitar o que os outros fazem, "sem falar de partidos políticos", tratar as questões com o espírito de nação?

 *É necessário e urgente rever-se e cortar os investimentos que aqui se faz na "Defesa" e canalizar para a Agricultura, a Saúde e a Educação.*

Tenhamos a inteligência e a coragem de o fazer, pois necessitamos de criar desenvolvimento. Já não estamos em guerra.

A guerra agora é, deve ser, na capacitação dos recursos humanos do país, potenciar as áreas acima citadas, para criar desenvolvimento.

Kuxixima Kwamy

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